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novembro
05
Estou Com AIDS (1985)

estou com aids

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Amargando a decadência do modelo de produção que o consagrou na Boca, no final de 1985 David Cardoso dirigiu e atuou – como entrevistador – em um inacreditável filme-jabuticaba (fenômeno só possível no Brasil) chamado “Estou Com Aids”. Misto de ficção e reportagem, revisto e reavaliado nos oferece um verdadeiro tratado sociológico de como a doença era encarada (e mitificada) no país em meados da década de 80.

Sensacionalismo, preconceito e ignorância dão a tônica, embora David, coerente com sua linguagem e ambição popular — críticos mal humorados diriam popularesca — tente ser o mais neutro e respeitoso possível. Acontece que o meio onde se enfia é um pântano: entrevistar “personalidades” e transeuntes na rua, deixá-los falar à vontade. Ilustra os depoimentos com vinhetas e encenações de reportagens publicadas na grande imprensa, como a histórica capa da Veja de 14 de agosto de 1985.

Os créditos surpreendem com um vaticínio: “Htlv3=Aids=Morte”. Tal barbaridade é plenamente justificada pelo temor e pânico que a doença espalhava naquele ano. Entre outras coisas, difundia-se o boato de que as chuvas durante o Rock in Rio, realizado em janeiro, causaram a propagação do vírus no país. E que Nostradamus avisara antes.

Isso também explica a digressão da cantora Alcione, que afirma para David que os gays brasileiros são limpos, gostam de banho e que o problema estava nos estrangeiros. Em seguida aconselha para os brasileiros a tomarem cuidado com “aqueles dos olhos azuis” (!).

Entrevistas se sucedem: Dulce Damasceno de Brito fala sobre Rock Hudson, Pedro de Lara sobre a falta de valores cristãos e o lutador Maguila acredita que esportistas estão livres de tentações que levem à Aids. Já a atriz Zaíra Bueno busca paralelo entre a doença e a disseminada falta de amor-próprio. Em momento alucinógeno, David pergunta a um dono de restaurante se “a propagação da aids afetou o estabelecimento”.

Nos trechos de ficção, o filme incute medo, muito medo. O caso da empregada doméstica, que transa com o patrão bissexual e termina na sarjeta, foi inspirado em box da matéria da Veja. Engraçado é o set de um filme pornô na Boca, onde a atriz — que havia lido reportagem sobre o receio de Bo Derek fazer cenas eróticas — recusa-se ao fellatio em dois rapazes, a não ser que eles se lavem “com bastante álcool”.

Exemplo típico de abordagem simples para um assunto complexo, “Estou Com Aids” termina demonstrando situações de suicídio, delegados que se metem na vida particular de doentes e hemofílicos confundidos com homossexuais porque contraíram a moléstia. Assim, denuncia quase sem querer o horror de se estar frágil em um país subdesenvolvido, de saúde pública e meios de informação precários.

Trazido à tona hoje, dificilmente escapa de uma condenação taxativa, mas precisamos levar em conta seu mérito de honestidade absoluta. Não sendo hipócrita, nem sutil, muito menos liberal, David Cardoso quis fazer um instantâneo vivo do pensamento corrente (e reacionário) sobre a moléstia.

E se por outro lado ainda não veio a cura – como profetiza otimista Anselmo Duarte – pelo menos causa enorme alívio a percepção de que, em 25 anos, avançamos bastante no quesito opinião pública. Desastroso, pitoresco, sinistro, execrável, “Estou Com Aids” é tudo de horrível, ruim – inclusive bastante real.

Texto: Andrea Ormond

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