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dezembro
23
Emanuelle Tropical (1977)

Emanuelle Tropical (1977)

FILME COMPLETOMAIS PORNOCHANCHADA

Acalmem-se,‭ ‬leitores:‭ “‬Emanuelle Tropical‭” (‬1977‭) ‬nem é tão apelativo quanto parece.‭ ‬Usa os jargões‭ “‬emanuellinos‭” ‬de fins dos‭ ‬70‭ ‬e dá a César o que é de César:‭ ‬muito chiquê,‭ ‬mulher bonita e liberação feminina nos tempos em que queimar sutiãs‭ “‬já estava super fora de moda‭”‬.

Para quem procura algo mais incisivo,‭ “‬A Filha de Emanuelle‭” (‬1980‭) ‬pode ser uma boa pedida.‭ ‬Clássico de Oswaldo de Oliveira,‭ ‬produzido por Antonio Polo Galante e estrelado por Vanessa Alves‭ – ‬que Carlos Reichenbach dirigiria em‭ “‬Anjos do Arrabalde‭” (‬1987‭) ‬e‭ “‬Garotas do ABC”‭ (‬2003‭) – “‬A Filha de Emanuelle‭” ‬é um filme que não se preocupa em utilizar as táticas sutis criadas pela matriz francesa.‭

Sucesso na França,‭ ‬Europa,‭ ‬Américas,‭ ‬Polinésia,‭ ‬oceanos Índico,‭ ‬Atlântico e Pacífico,‭ “‬Emmanuelle‭” (‬1974‭) ‬foi mola propulsora da carreira de Sylvia Kristel e criou uma franquia cinematográfica associada ao nome da protagonista para todo o sempre:‭ ‬mulher de diplomata,‭ ‬etnocêntrica,‭ ‬em viagem dentro de si mesma e de outrem,‭ ‬à procura da chama oculta do sexo e da liberdade.‭

Muitos jogos de tênis,‭ ‬quadras de tênis,‭ ‬indumentárias de tênis,‭ ‬sauna a vapor,‭ ‬cavalos,‭ ‬haras,‭ ‬camparis,‭ ‬carros Puma,‭ ‬homens barbados,‭ ‬moças de cabelos lisos,‭ ‬piscinas,‭ ‬fotografia esfumaçada,‭ ‬em uma bruma para dizer que tudo ali trafega no plano da sensibilidade e não necessariamente para encher os cofres dos produtores.

Evidente que um fenômeno pop desta dimensão seria regurgitado e retrabalhado por gente de maior ou menor talento,‭ ‬acoplando temáticas cada vez mais‭ ‬hardcores e experimentações idem.‭ ‬Quem assistiu ao‭s “‬Emanuelles‭”‬,‭ ‬com apenas um‭ “‬m‭” ‬e estrelados por Laura Gemser,‭ ‬tal como o‭ “‬Emanuelle Nera‭” (‬1975‭)‬,‭ ‬capta fácil a mudança de estilo.

Na terra do‭ ‬patropi,‭ ‬as encucações são diferentes.‭ ‬Produzido pela Haway‭ [‬sic‭] ‬Filmes,‭ ‬montagem de Milton Bolinha e direção de J.‭ ‬Marreco,‭ “‬Emanuelle Tropical‭” ‬brinca de metalinguagem:‭ ‬Emanuelle‭ (‬Monique Lafond,‭ ‬dublada em estilo radiofônico,‭ ‬a la comercial da PanAm‭) ‬é casada,‭ ‬sim,‭ ‬com um arquiteto rico‭ (‬Franco‭)‬,‭ ‬mas recusa a pecha de submissa e dependente.‭

Vai à luta,‭ ‬batalha um lugar na sociedade como modelo e aparece vez por outra nos‭ ‬sets de filmagens ou de fotografias.‭ ‬Nestas horas vemos a equipe de J.‭ ‬Marreco gravando as cenas dos J.‭ ‬Marrecos ficcionais.

O‭ “‬lance do prazer sem posse‭”‬,‭ ‬as fumaças de cigarro,‭ ‬os lençóis tapando os sexos,‭ ‬o casal lésbico formado por Maricler‭ (‬Selma Egrei‭) ‬e Lúcia‭ (‬Matilde Mastrangi‭)‬,‭ ‬a presença de um arquiteto‭ – ‬fantasia recorrente da época,‭ ‬como afinal também era o nervoso Paul Kersey,‭ ‬personagem de Charles Bronson em‭ “‬Desejo de Matar‭” (‬1974‭)‬.‭ ‬Tudo conspira à exploração dos sentidos,‭ ‬embrulhada para presente na filosofia de‭ ‬paperback:‭ ‬viva,‭ ‬seja feliz,‭ ‬lute contra as amarras da sociedade e as mentes mesquinhas de gente pequena.‭

Neste sentido,‭ ‬o relacionamento de Emanuelle e Franco é exemplar,‭ ‬pois ambos têm de comum acordo a promessa de não se intrometerem nas escapulidas que um ou outro cometam com quem quer que seja.

Vez por outra toca o‭ “Divertissement”‬,‭ ‬do álbum‭ “‬Concerto Para Uma Voz‭”‬,‭ ‬de Saint-Preux,‭ ‬combinando com a atmosfera frugal.‭ ‬Eis,‭ ‬porém,‭ ‬que o namorico entre Franco e Lúcia engrena de vez e acaba fundindo a cuca da protagonista.‭ ‬Mas tudo bem.‭ “‬A vida é assim:‭ ‬cheia de zonas,‭ ‬filtros,‭ ‬fusões‭”‬,‭ ‬comenta Emanuelle a certa altura.

Resolve visitar Ivan,‭ ‬o amigo roteirista de cinema,‭ ‬que está prestes a partir para gravações de um projeto recente.‭ “‬Estou aqui escrevendo,‭ ‬transando o meu roteiro e você com os seus problemas existenciais.‭” ‬Faltou um pouco de paciência a Ivan‭ – ‬escritores são criaturas indóceis‭ – ‬mas em breve tudo se ajeitaria.‭ ‬Partiriam para uma viagem com novas dimensões de procura e entrega,‭ ‬ao lado de outros elementos e personagens em cena.

O fato é que,‭ ‬no cômputo geral,‭ ‬as belezas de Monique Lafond e Selma Egrei destacam-se de maneira indiscutível e vencem as obviedades da trama.‭ ‬De todo modo,‭ ‬a‭ “‬Emanuelle Tropical‭” ‬não é uma vedete alucinada,‭ ‬não é sambista,‭ ‬não diz no pé,‭ ‬não usa a flora e a fauna tropicais,‭ ‬como seria de se supor pelo título.‭ ‬Um tanto europeizada,‭ ‬faz parte de um subgênero que ganhou novas camadas com o tempo e fecha como achado antropológico para quem quiser entender a importação de um conceito alienígena pelo cinema brasileiro.‭

por Andrea Ormond

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