Qualquer pesquisa sobre a produção de pornochanchadas no Brasil não pode esquecer o nome de Antonio Polo Galante, ou A.P. Galante. Mas embora esteja intrinsecamente ligado ao pornô, a diversidade que marca a trajetória de Galante é muito maior. Ele produziu filmes de cangaço, terror, faroeste caboclo, comédia musical caipira, filmes policiais e de presídio, filmes de autor, filmes históricos, dramas eróticos, filmes experimentais e o que mais você possa imaginar. E em cada gênero ou subgênero em que metia a mão, garantia em média um milhão de ingressos vendidos em 15 dias, ou até em uma semana.
Tudo o que se diz nos cadernos culturais sobre a comunicabilidade do público, do mercado, da identidade e da diversidade do cinema brasileiro era uma realidade concreta para produtores como Galante que, mesmo não tendo verbas estatais, buscavam, na parceria com o exibidor e, no respaldo de algumas leis federais e municipais (lei de obrigatoriedade, adicional de bilheteria tc.), um mercado que respondesse ao volume de dinheiro investido.
Mas o mercado mudou, mudou o país, mudaram todas as condições de se produzir cinema e cultura no Brasil. Os que ligavam o nome Galante ao antigo produtor de sucesso puderam assistir (ou talvez nem isso) a um derradeiro fracasso, o filme musical-infantil Cinderela Baiana (1998, de Conrado Sanchez), com Carla Perez. Procure os vídeos no YouTube e você vai entender o motivo de tão retumbante fracasso.
Mas o que nos interessa mesmo é o início de Antônio Polo Galante no cinema, que coincide com o fim do ciclo dos grandes estúdios no final dos anos 50.
Ainda adolescente, ingressou na Maristela como faxineiro pelas mãos de Alfredo Palácios, então diretor de produção da companhia, com quem anos depois viria a montar uma produtora de filmes, a Servicine. De faz-tudo Galante passou a eletricista e, no início dos anos 60, já fazia assistência de câmera em O Cabeleira (direção de Milton Amaral), em diversos documentários produzidos por Jacques Deheinzelin e John Waterhouse (escola de vários profissionais de cinema, entre eles Ozualdo Candeias) e em filmes de Walter Hugo Khouri (como As Cariocas).
Mais tarde, já nos anos 70, Khouri seria produzido por Galante. A Boca do Lixo era, naquele período, um centro cinematográfico aglutinador, para onde convergiam produtores, diretores, roteiristas, técnicos, distribuidores, atores, atrizes e aspirantes em geral. Os restaurantes Costa do Sol (na rua Sete de Abril) e Soberano (na rua do Triumpho) eram os pontos de encontro.
Ali Galante acabou se fixando, inicialmente fazendo serviços de compra e venda de material e, mais tarde, como sócio de Palácios na Servicine, uma parceria que durou até 1976 e rendeu mais de 40 filmes. Sociedade desfeita, Galante produziu sozinho, até o início dos anos 90, uma quantidade superior a 50 filmes. Não por acaso, ficou conhecido como o Rei da Boca.
Galante contava com uma série de técnicos e diretores quase fixos: eletricistas como Miro Reis, diretores de produção como Enzo Barone, fotógrafos e diretores como Antônio Meliande e Osvaldo de Oliveira (ou Osvaldo “Carcaça”, como era conhecido na Boca), montadores como Sylvio Renoldi e Gilberto Wagner, e diversos outros profissionais.
A incrível agilidade de seu método de produção combinava-se com um prático esquema de parceria e cumplicidade com os exibidores, o que garantia de antemão o mercado para o filme.
O conjunto dos longas produzidos pela Servicine e por Galante foi, assim, possibilitado pelo contato direto com o mercado exibidor, muito embora em Lucíola (Alfredo Sternheim), À Flor da Pele (Francisco Ramalho Jr.), Convite ao Prazer (Khouri) e Anjos do Arrabalde (Reichenbach), tenha havido a participação da Embrafilme, em alguns casos na produção e em outros na distribuição.
Pode-se dizer que a pornochanchada já estava latente no primeiro filme produzido por Galante, o acidentado Vidas Nuas (1967). Este filme, cujo título original era Eróticas, havia sido iniciado em 1962 por Ody Fraga e permanecia inacabado. Foi comprado por Galante em parceria com o montador Sylvio Renoldi. Trataram de finalizá-lo introduzindo vários minutos de cenas de São Paulo à noite… e de mulheres fazendo strip-tease!
A máxima de Buñuel (“se um filme fica curto, eu ponho um sonho”) poderia ser aqui perfeitamente aplicada, com a providencial substituição da palavra “sonho” por “sexo”. Mas foi em 1973 que o apelo erótico foi definitivamente incorporado ao repertório da Servicine, com o sucesso de público Os Garotos Virgens de Ipanema, dirigido por Osvaldo de Oliveira.
Tratava-se de uma comédia picante, bastante inocente em relação à pornochanchada dos anos 80. Os Garotos Virgens de Ipanema significou a descoberta de um importante filão de sobrevivência para a Servicine, que vinha de alguns fracassos comerciais (No Rancho Fundo, Luar do Sertão, de Osvaldo de Oliveira) e de tentativas frustradas de um cinema “sério” e pretensamente político (As Armas, de Astolfo Araújo, e Paixão na Praia, de Alfredo Sternheim).
Para desenvolver o argumento de Os Garotos Virgens de Ipanema, que nascera do próprio Galante, foi chamado o escritor Marcos Rey, um dos mais requisitados roteiristas da Boca, ao lado de Ody Fraga e Rajá de Aragão. O sucesso de público fez com que Galante jamais se descuidasse desse filão. Desta forma, Galante produziu, durante e após a Servicine, As Meninas Querem… E Os Coroas Podem, A Filha de Emmanuelle e O Bordel (os três de Oliveira), Sabendo Usar Não Vai Faltar (Francisco Ramalho Jr., Adriano Stuart), Kung Fu Contra as Bonecas (Stuart), Lilian, a Suja, Anarquia Sexual e A Primeira Noite de Um Adolescente (os três de Antônio Meliande), As Safadas (Inácio Araújo, Meliande e Reichenbach) Terapia do Sexo e A Filha de Calígula (ambos de Ody Fraga), Nos Tempos da Vaselina (José Miziara), As Prostitutas do Dr. Alberto (Sternheim), e vários outros.
Muitos destes títulos já estão perfeitamente integrados ao esquema da pornochanchada, que mais ou menos a partir de 1975 sedimentou-se na Boca do Lixo. Mesmo os “filmes sérios” não deixavam de levar o universo erótico em conta, como atestam Filhos e Amantes e À Flor da Pele (Ramalho Jr.), todos os filmes de Walter Hugo Khouri feitos com a Servicine e a Galante PC, os filmes de Astolfo Araújo e de Sternheim, e, claro, os de Reichenbach, incluindo Anjos do Arrabalde.
O apelo erótico não escapa até mesmo a um bang-bang paródico como Rogo a Deus e Mando Bala (1972, direção de Osvaldo “Carcaça”), até porque tal atmosfera já era típica do modelo original que se buscava imitar, ou seja, o spaghetti-western. Aliás, como é característico na pornochanchada, muitos destes filmes nasceram da cópia de sucessos estrangeiros, caso evidente de filmes como Kung-Fu Contra as Bonecas, Lilian, a Suja, A Filha de Calígula, Nos Tempos da Vaselina e A Filha de Emmanuelle.
Após desfazer a sociedade com Palácios em 1976, Galante decidiu não só copiar títulos mas todo um subgênero então muito em moda: os filmes de presídios femininos. Pertencem a esta série longas como Presídio de Mulheres Violentadas (Oliveira, Luiz Castillini), Internato de Meninas Virgens, Pensionato das Vigaristas, Fugitivas Insaciáveis, o extremamente bem-sucedido A Prisão (Oliveira), Escola Penal de Meninas Violentadas (Meliande) e Reformatório das Depravadas (Fraga). Este diálogo imediato com o mercado de filmes violentos e eróticos atesta não só a afluência realmente popular nas salas de cinema como revela, em uma época ainda muito recente, um intenso relacionamento entre produção, distribuição e exibição.
Tal quadro, uma vez desaparecido com a depauperação do pornô, a entrada dos filmes estrangeiros de sexo explícito e a desorganização de todo o esquema político-”industrial”-econômico do cinema brasileiro pós-1989, tende a se fixar como mais um ciclo cinematográfico isolado e intransferível.
Mas foi exatamente esta conjuntura que possibilitou um cinema realmente desvinculado da tutela estatal, c
ujo dinheiro investido retornava ao produtor e ao exibidor através do bilhete pago, anos antes de se tornar cult a palavra “independente”. E as conseqüências daquela fase, para o mercado de trabalho, foram determinantes.
Sem aprofundarmos questões importantes como a exploração do trabalhador cinematográfico e as condições precárias de contratação dos diretores, foi exatamente este tipo de cinema – o produzido por nomes como Galante – que possibilitou para centenas de profissionais um ritmo e uma continuidade de produção hoje inimagináveis. Historicamente, isto não pode ser menosprezado.
Mesmo estando intimamente ligado à produção pornochanchadesca, o nome de A. P. Galante não pode ser desvinculado destas variadas vertentes cinematográficas.
Além dos filmes de gênero, Galante abrange o Khouri das lentas seqüências de vazio existencial (As Deusas e O Último Êxtase) e dos rápidos planos de orgia sexual (O Prisioneiro do Sexo e Convite ao Prazer); passa pelo cinema novo através de Memória de Helena e Lúcia McCartney (David Neves), além da experiência individual de Sylvio Back em seus dois primeiros longas (Lance Maior e Guerra dos Pelados); funde pornochanchada e experimentalismo em A Ilha dos Prazeres Proibidos, Império do Desejo e Paraíso Proibido (os três de Carlos Reichenbach) e produz ou finaliza algumas pérolas do cinema experimental: O Pornógrafo (João Callegaro), A Mulher de Todos (Rogério Sganzerla), Gamal – O Delírio do Sexo (João Batista de Andrade), Em Cada Coração Um Punhal (Sebastião de Souza, José R. Siqueira e J. B. de Andrade) e América do Sexo (Leon Hirszman, Luiz Rosemberg, Flávio M. da Costa e Rubens Maia). E mesmo com a decadência da pornochanchada e a entrada do sexo explícito, Galante ainda produziu interessantes títulos como A Menina e o Cavalo, Prisioneiras da Selva Amazônica, etc.
E Cinderela Baiana também… mas esse, por respeito, a gente esquece!